Há uma hora, entre as cinco e as seis da tarde, em que qualquer divisão se revela. É por isso que raramente decido um projeto de manhã.
A essa hora a luz baixa, atravessa a sala na horizontal e denuncia tudo. A textura de um estuque mal afagado. O brilho a mais de um lacado. A proporção errada de um móvel encostado à parede que, ao meio-dia, parecia bem.
De manhã a luz é generosa e perdoa. Ao fim do dia não perdoa nada, e é isso que a torna útil.
A hora certa da visita
Quando visito uma casa pela primeira vez, peço sempre para voltar ao fim da tarde. Não levo amostras nem sequer o caderno. Fico de pé no meio da divisão e vejo por onde a luz entra, onde bate e onde morre. Vejo quanto tempo demora a atravessar o chão e em que canto a sombra fica presa.
Metade das decisões de um interior nascem daí, muito antes de haver uma planta ou uma paleta. O sítio onde se lê ao fim do dia é uma escolha de luz antes de ser uma escolha de mobiliário. O resto vem atrás.
Há casas orientadas a norte onde nunca proporia um tom frio, por muito bem que fique numa fotografia. E há salas viradas a poente onde um branco puro se torna insuportável às sete da tarde.
O engano começa na loja
O erro mais comum que encontro não tem nada a ver com bom ou mau gosto. Escolhem-se os materiais numa loja iluminada a LED frio, ao meio-dia, com a amostra na mão e a luz sempre igual. Depois estranha-se que em casa não sejam a mesma coisa.

Não são. Nunca foram. A mesma amostra de linho vista às dez da manhã, às quatro da tarde e às nove da noite dá três respostas diferentes, e só uma delas interessa: a da hora em que aquela divisão vai ser mesmo usada.
Por isso peço sempre que as amostras fiquem na casa uns dias. Não em cima da mesa da cozinha, mas na parede a que se destinam e à altura a que vão ficar. Custa nada e evita meses de arrependimento.
Uma casa vive vinte e quatro horas por dia. A fotografia só apanha uma delas.

