Ninguém fotografa a arrumação

As casas de que as pessoas se cansam raramente têm um problema de gosto. Têm um problema de sítio para guardar as coisas.

Share:

Ao fim de dois anos numa casa, ninguém se queixa da cor das paredes. Queixa-se de que não há onde pôr o aspirador. Do casaco que fica na cadeira porque a entrada não tem um cabide. Das malas em cima do armário, à vista, porque não houve altura suficiente para as esconder.

Nada disto aparece nas fotografias. Uma casa fotografa-se vazia, e vazia toda a casa funciona.

O que se vê e o que se guarda

Quando desenho um interior, faço duas listas. Uma é do que vai ficar à vista, e é a lista curta. A outra é do que tem de desaparecer, e é sempre maior do que o cliente espera: a tábua de engomar, o material de limpeza, os cabos, as caixas de sapatos, os documentos, os brinquedos que mudam de sítio todos os anos, a mala de fim de semana e a mala grande de agosto.

A segunda lista é a que decide o projeto. Se não couber, vai ficar à vista, e nenhuma escolha de material salva uma sala onde há sempre qualquer coisa fora do lugar.

A conta que ninguém faz

Antes de escolher um sofá, faço uma conta simples: quantos metros lineares de arrumação fechada existem hoje e quantos são precisos. Quase sempre falta. Em apartamentos antigos falta muito, porque foram desenhados para pessoas com menos coisas.

Essa conta muda a planta antes de mudar a decoração. Às vezes rouba trinta centímetros a um quarto para dar um armário à entrada, e é a decisão de que o cliente mais gosta ao fim de um ano, apesar de ter sido a que mais lhe custou aceitar.

A arrumação é a única parte de uma casa que só se nota quando falta.